Por André Faria, CEO da Bluesoft
Recentemente, o Walmart divulgou os dados do seu último ano fiscal no relatório para os investidores, o 10-K. E, como CEO de uma empresa de tecnologia que vive o varejo todos os dias, posso dizer com tranquilidade, vale a pena o varejista brasileiro reservar um tempo para olhar esses números com atenção. Não pelo tamanho da operação, que é incomparável, mas pelo que eles revelam sobre o caminho que o varejo global está trilhando e que, mais cedo ou mais tarde, vai chegar com força por aqui.
Em um cenário de pressão inflacionária, juros elevados e consumidor cauteloso, o Walmart entregou no quarto trimestre do ano fiscal de 2026 uma receita total de US$190,7 bilhões, alta de 5,6%, ou 4,9% em moeda constante. Mais relevante do que o crescimento da receita foi o comportamento do lucro operacional ajustado, que cresceu 10,5% em moeda constante, mais que o dobro do ritmo da receita na mesma base.
O e-commerce global também avançou 24% no quarto trimestre e representou 23% das vendas líquidas do período. No ano fiscal completo, a operação digital chegou a aproximadamente US$150 bilhões em vendas, mostrando que o digital deixou de ser um canal complementar para se tornar parte estrutural da operação do Walmart.
Esses números, à primeira vista, parecem apenas uma boa notícia para os acionistas. Mas, quando olhamos para o que está por trás deles, vemos algo muito mais interessante para quem opera no varejo, uma tese sendo validada na prática.
E que tese é essa? A de que tecnologia, dados e IA não são custo, são alavancas de margem!
Quando uma empresa do tamanho do Walmart cresce o lucro operacional no dobro da velocidade da receita, isso não é coincidência nem efeito de calendário. É alavancagem operacional. E essa alavancagem não vem do nada, ela vem de decisões consistentes de investimento em tecnologia, automação e inteligência de dados, feitas ao longo dos últimos anos.
O próprio relatório deixa isso claro. Hoje, cerca de 50% do volume dos centros de fulfillment do Walmart nos Estados Unidos já está automatizado. Aproximadamente 60% das lojas recebem algum nível de carga automatizada. E 23 dos 42 centros de distribuição regionais estão em alguma fase de retrofit de automação. O resultado disso aparece nos indicadores, o estoque cresceu apenas 2,6% em moeda constante, enquanto a receita anual avançou bem mais. Em termos práticos, o Walmart está vendendo mais com proporcionalmente menos estoque parado, o que libera capital, reduz quebra e aumenta giro.
Essa é a primeira lição que tiro do relatório, e que costumo defender em todas as conversas que tenho com varejistas, dados bem estruturados e tecnologia bem aplicada não são um centro de custo. São o que permite crescer e, ao mesmo tempo, expandir a margem. São duas coisas que, no varejo tradicional, costumavam ser vistas como excludentes, mas que são complementares.
Outro ponto que merece atenção é o avanço do Walmart Connect, a operação de retail media da rede, que cresceu 41% no trimestre. Para quem não está familiarizado, retail media é a monetização do espaço físico e digital da loja para anunciantes, baseada nos dados reais de venda e comportamento do shopper. Em outras palavras: é uma nova linha de receita que só existe porque o varejista tem dados estruturados, unificados e acionáveis.
Isso conversa diretamente com algo que vi recentemente na EuroShop, em Düsseldorf, e que escrevi aqui mesmo na SuperHiper, o varejo global está orientado por dados em uma intensidade cada vez maior, e a IA deixou de ser projeto de inovação isolado para virar arquitetura central da operação. O Walmart é o exemplo mais claro disso. O Walmart já trata publicamente a IA agentic como parte da nova arquitetura do varejo. No próprio 10-K, a companhia reconhece o avanço de plataformas agentic na jornada de compra e, em seus materiais institucionais, descreve agentes de IA aplicados a clientes, operações, suporte, desenvolvimento e supply chain.
E aqui está o terceiro número que considero importante destacar: o e-commerce do Walmart nos EUA cresceu 27% no trimestre, com cerca de 50% de crescimento na entrega expedida a partir das próprias lojas. A rede hoje oferece entrega em menos de três horas para 95% dos lares americanos. Isso só é possível porque há uma camada de inteligência conectando estoque das lojas, demanda em tempo real, roteirização de entregas e capacidade operacional. Sem dados unificados e sem IA atuando em tempo real, esse número simplesmente não existiria.
O que o Walmart está sinalizando para o futuro
O guidance que a companhia divulgou para o próximo ano fiscal também é revelador. O Walmart projeta crescer entre 3,5% e 4,5% na sua receita, mas crescer o lucro operacional ajustado entre 6% e 8%, em moeda constante. Mais uma vez, o lucro crescendo bem mais rápido do que a receita.
Em outras palavras, a companhia está dizendo aos investidores que os investimentos em automação, IA e omnichannel vão continuar gerando alavancagem operacional. Não é uma aposta. É uma projeção sustentada por uma operação que já está colhendo os frutos da estratégia.
Para quem opera no Brasil, isso é um sinal importante. O varejo global está mostrando que tecnologia bem implementada não compete com a margem, ela protege e expande a margem.
A ponte para o varejo brasileiro: o caminho é parecido, mas a estratégia é diferente
Aqui é onde precisamos fazer um exercício honesto. O Walmart é uma operação com mais de US$700 bilhões de receita anual e décadas de investimento em infraestrutura tecnológica. Nenhum varejista brasileiro vai replicar esse caminho. Mas a tese, essa sim, se aplica integralmente ao nosso mercado.
A diferença está na forma de executar. No varejo internacional, prevalece a estratégia chamada “Best-of-Breed”, em que o varejista combina de 10 a 15 softwares especializados (um para o PDV, outro para a padaria, outro para escala de funcionários, outro para o financeiro) e gasta tempo e dinheiro mantendo integrações entre eles funcionando. Faz sentido lá fora, onde a complexidade fiscal é menor e o ecossistema de fornecedores é maduro.
No Brasil, essa estratégia é muito mais difícil de executar. Nossa complexidade tributária, somada à velocidade das mudanças legais, torna caro e arriscado operar com múltiplos sistemas desconectados. Para boa parte do varejo alimentar brasileiro, a estratégia mais segura é partir de uma base transacional única, verticalizada e profundamente integrada.
E é exatamente nesse ponto que a Inteligência Artificial faz a diferença. Quando a IA está integrada ao ERP, ela não opera no vazio. Ela pode ser alimentada pelo contexto real da operação: entradas, saídas, pedidos, inventários, comportamento de compra por loja e sazonalidade. É essa integração que transforma a IA em um copiloto do varejista, capaz de antecipar quebras, sugerir reposições, identificar desvios e gerar insights em tempo real.
Na Bluesoft, esse é o caminho que escolhemos há muito tempo, e os resultados que vemos nos nossos clientes confirmam a tese, o varejista brasileiro que tem dados unificados em um ERP web, com IA nativa, consegue capturar o mesmo tipo de ganho de produtividade e margem que o Walmart está colhendo lá fora, respeitando, claro, a escala e a realidade do nosso mercado.
A conclusão que tiro do relatório
Quando leio um documento como o 10-K do Walmart, não enxergo apenas os números de uma rede americana. Enxergo um manual, em escala global, do que vai acontecer com o varejo nos próximos anos. E a mensagem central é simples: quem domina dados, lidera. Quem usa IA com propósito, expande a margem. Quem ainda trata tecnologia como custo, vai perder competitividade.
O varejo brasileiro tem uma janela importante neste momento. A reforma tributária está chegando, o consumidor está cada vez mais digital, a pressão por eficiência operacional só aumenta, e a IA está, finalmente, madura o suficiente para ser usada de forma estratégica e segura no nosso mercado. Os varejistas que entenderem que tecnologia, dados e IA são, hoje, as três alavancas mais importantes de competitividade serão os que vão dar o próximo salto.
O Walmart já mostrou o que acontece quando essa equação é executada com disciplina ao longo de anos. Cabe a nós, no Brasil, executar a nossa versão dessa estratégia, com a inteligência de adaptá-la à nossa realidade. E o tempo, como sempre no varejo, é agora.