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Supermercados constatam clientes preocupados com o valor final das compras

14 de agosto de 2022
 - 
17:36
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Bruno Marcon
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Com ajuda da inteligência artificial, empresa de tecnologia consegue mapear os produtos deixados antes do caixa e detectar que o volume de abandonados cresceu 16,43% no primeiro semestre deste ano

Cresceu nos últimos meses o número de brasileiros que não consegue levar para casa toda a comida que escolhe e coloca no carrinho do supermercado.

O corte na compra acontece na boca do caixa, quando o valor da conta passa do previsto. A saída tem sido abandonar na loja itens que vão do básico, como óleo de soja e açúcar, ao supérfluo, como refrigerante e cerveja, por exemplo.

O que acontece é que a indústria aplicou aumentos no último semestre por questões de falta de matéria-prima, elevação dos custos internacionais devido à Guerra da Ucrânia e ainda reflexo dos dois anos de pandemia.

Resultado: preços majorados na ponta, nos supermercados, e o cliente deixando quase 5 milhões de produtos em mais de  900 lojas no País, número 16,42% superior ao do ano passado.

Na prática, impulsionado pela alta de preços dos alimentos, o carrinho que fica nos caixas dos supermercados está cada vez mais cheio. Entre janeiro e junho deste ano, 4,997 milhões de itens foram abandonados. É um volume quase 16,5% maior em relação ao primeiro semestre do ano passado, ou 704,9 mil itens a mais barrados na boca do caixa, revela uma pesquisa inédita feita, a pedido deste veículo de comunicação, pela Nextop. A empresa é especializada em tecnologia de segurança de varejo e prevenção de perdas e está há 25 anos nesse mercado.

Por meio de inteligência artificial e de um grande banco de dados, foram extraídas informações autorizadas do movimento de caixa de 982 supermercados de médio e pequeno porte do País. A amostra inclui estabelecimentos que atendem a todas as faixas de renda e que juntos faturam R$ 5 bilhões anuais.

Para chegar ao volume de produtos que deixou de ser comprado, Juliano Camargo, CEO e fundador da empresa, reuniu itens cancelados, isoladamente e também cupons fiscais inteiros, com aqueles produtos que o consumidor consultou o preço no caixa e desistiu da compra antes de registrar no ponto de venda.

“Um crescimento de 16,42% na quantidade de itens abandonados é altíssimo e reflete que muita gente deve estar tomando susto”, afirma Camargo. Apesar de não ter uma série histórica longa desses dados, pela experiência acumulada no setor, ele acredita que a quantidade de itens devolvidos na boca do caixa não teria aumentado, se a inflação de alimentos estivesse controlada.

Em julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou deflação de -0,68%, por causa dos cortes de impostos nos combustíveis e na eletricidade. No entanto, os preços da comida continuaram subindo e a inflação do grupo alimentação acelerou, indo de um aumento 0,80% em junho para 1,30% em julho. Neste ano até julho, os alimentos subiram 9,83% e, em 12 meses, 14,72%, ante o IPCA de 4,77% e 10,07%, respectivamente, acumulado em igual período.

O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), o economista Claudio Felisoni de Angelo, também atribui esse aumento de volume de produtos devolvidos à disparada da inflação nos últimos meses e ressalta a clareza desse indicador. “O tamanho da pilha de produtos deixados no caixa pelo consumidor é a medida concreta do tamanho da crise que vivenciamos hoje”, afirma. Ele argumenta que resultados revelados normalmente pelos indicadores de inflação, renda e emprego, têm uma dimensão mais abstrata.

Básicos e supérfluos

“O carrinho que fica está refletindo a inflação e pega pobres e ricos, com itens básicos e supérfluos”, observa Camargo. Ele faz essa afirmação com base num ranking de produtos mais devolvidos no primeiro semestre deste de ano.

Quem lidera a lista é o refrigerante, seguido pelo leite, óleo de soja, cerveja e açúcar. Dos dez itens que mais sobraram na boca do caixa, quatro são básicos – leite, óleo de soja, açúcar e farinha de trigo – e seis não tão essenciais – refrigerante, cerveja, molhos, biscoitos, hambúrguer e bebida láctea.

Quatro produtos mais abandonados no caixa – leite, óleo, cerveja e biscoito – também constam entre os dez que registraram as maiores quedas nas quantidades vendidas no varejo de autosserviço no primeiro semestre deste ano em relação a igual período do ano passado, segundo um levantamento inédito feito, a pedido desse veículo de comunicação, pela NielsenIQ, consultoria que monitora o desempenho dos produtos nos supermercados.

A cerveja puxa a fila dos itens com maiores quedas de venda em volumes apurada pela consultoria com -15,6%, seguida pelo leite (-13,7%), cortes de frango (-11,6%), café em pó (-8,5%), legumes (-8,2%), óleo comestível (-7%), queijos (-6,5%), biscoitos (-5,1%), industrializados de carne (-2,8%) e cortes bovinos (-2,7%). Não por acaso, vários desses produtos estão entre os que mais registram altas de preços nos últimos meses, como leite, café, óleo, carnes, biscoitos, por exemplo, segundo o IPCA, a medida oficial da inflação do País.

A freada brusca do consumidor na reta final das compras provoca um efeito em cascata na cadeia de abastecimento. O encalhe faz com que os supermercados comprem volumes menores das indústrias e esfriem o ritmo de produção e atividade. “Hoje o nível de estoques dos supermercados é o mais baixo dos últimos anos”, diz Camargo.

Alerta

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), que reúne 93 mil lojas , entre supermercados, hipermercados, atacarejos e comércio online, com faturamento anual de R$ 611 bilhões anuais, não tem dados sobre produtos devolvidos. “É a primeira vez que estamos tomando conhecimento dessa medição”, afirma o vice-presidente da entidade, Marcio Milan.

Apesar de ponderar que a amostra usada para realização do estudo responde por menos 1% das vendas do setor, Milan diz que os resultados indicam crescimento. “É um alerta para as empresas que eventualmente essas coisas podem estar acontecendo em maior ou menor escala, dependendo do tipo de loja e da região.” Ele observa também que lista produtos mais devolvidos é coerente com o quadro atual: reúne itens básicos que tiveram alta expressivas de preços e também produtos não essenciais que podem ser cortados em caso de aperto no orçamento.

Procurada, a Associação Paulista de Supermercados (Apas) não quis se manifestar sobre o levantamento.

Mais trabalho

O movimento de devolução nas prateleiras de itens deixado pelo consumidor no caixa do supermercado cresceu desde o mês passado numa loja da capital paulista onde Marcos Paulo da Silva Moura é subgerente. “Antes eram, no máximo, dois carrinhos por período e agora de três para cima”, conta. Entre os itens que mais retornam às prateleiras estão carne e os supérfluos, como biscoitos, frios e laticínios. Esses últimos voltam imediatamente para a geladeira para evitar perdas e demanda mais viagens do pessoal da loja.

A aposentada Maria do Carmo Azevedo, de 63 anos, que ganha um salário-mínimo e faz bico como diarista, por exemplo, já deixou produto no caixa não só uma vez, mas várias. Com um pacote de pão na mão e outro de mandioquinha e abóbora – os ingredientes para preparar a sopa–, na última quarta-feira ela conferia o preço do biscoito, que, segundo ela, subiu de R$ 3 para 6,98, e fazia as contas. “Se passar de R$ 30 vou ter que tirar alguma coisa, porque amanhã tem que comprar pão de novo.”

Nas ocasiões nas quais Maria do Carmo teve de devolver o produto, ela se recorda que ficou muito constrangida. “Já aconteceu isso algumas vezes por eu ter feito conta errada e também por me surpreender com os preços: hoje é um e amanhã é outro.”

Já a consumidora Juliana Gomes Rosa, de 35 anos, casada e mãe de dois filhos, que trabalha no mercado financeiro, nunca teve de devolver produto no caixa. Mas a seleção é feita antes. “Tenho deixado de escolher coisas que gostaria de comprar”, conta.

De seis meses para cá, Juliana tem sentido uma diferença muito grande nos preços e no gasto da compra do mês. Até pouco tempo atrás desembolsava, em média, R$ 1,5 mil. Hoje gasta um pouco mais de R$ 2 mil, mesmo tendo reduzido bastante a compra de itens não essenciais, como chocolates e laticínios, e cortado também as quantidades de básicos, como açúcar. “O nosso poder de compra não aumentou e os preços estão um absurdo.”

Ela explica que o aumento da inflação levou à perda de referência de preços de vários produtos, como leite, café, ovos, óleo, azeite, por exemplo. Juliana diz que ela, como todos brasileiros, está tentando viver um dia após o outro para não ficar ansiosa e ter reflexos em outras áreas da vida. “Toda essa situação não impacta só as compras: é a viagem, a escola. Tudo isso a gente tira para poder se alimentar.”

Fonte: Marcia De Chiara, Estadão


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