Maior varejista do mundo vê recuo mais acentuado do consumo no fim de outubro e se mostra menos otimista para o Natal
Por Renato Müller
Quando o maior varejista do mundo afirma estar “mais cauteloso hoje em relação ao consumidor do que estava 90 dias atrás”, é bom ficar de olho. O Walmart disse que percebeu uma queda mais acentuada das vendas nas últimas duas semanas de outubro e afirma estar menos otimista em relação ao comportamento das vendas na temporada de fim de ano.
Como a empresa responde por mais de 20% das vendas de alimentos e bebidas no varejo americano, segundo dados da Bloomberg Intelligence, o desaquecimento visto no mês passado pode apontar para um Natal bem menos aquecido do que o esperado anteriormente. E existem razões macroeconômicas para isso: as taxas de inflação continuam alta, os juros no mercado americano estão elevados para os padrões locais e a confiança do consumidor vem diminuindo – o que sempre impacta a disposição de comprar.
A análise pessimista do Walmart, divulgada na semana passada, é compartilhada por rivais como a Target, que continua a perceber um desaquecimento em categorias de produtos como móveis e vestuário. O CEO da Target, Brian Cornell, disse que os consumidores estavam adiando suas compras até o último minuto, evitando comprometer sua renda até que seja estritamente necessário. Um bom exemplo foi a compra de roupas de inverno somente quando o clima começou a esfriar, em vez de aproveitar o início da temporada (quando há mais opções nas araras das lojas).
Esse comportamento, típico de períodos recessivos, também se espalha em outros segmentos. A HelloFresh, de entrega de kits de refeições, reduziu na semana passada suas expectativas de lucro para o trimestre, por causa do menor número de novos clientes.
Para John David Rainey, diretor financeiro do Walmart, o custo dos empréstimos e a diminuição dos estoques de poupança estão compensando o efeito positivo da desaceleração da inflação nos últimos meses. Outro fator que pode estar impactando as famílias é a retomada dos pagamentos de empréstimos estudantis no início de outubro (a amortização de financiamentos tinha sido interrompida desde a pandemia): dados da Apollo Global Management, uma gestora de investimentos, mostram um aumento do percentual de famílias americanas com dificuldade em pagar as despesas domésticas.
Dados do governo americano mostram um desaquecimento das vendas do varejo como um todo. Segundo o US Census Bureau, as vendas em outubro avançaram 2,5% na comparação anual e caíram 0,1% sobre setembro – quando as vendas tinham subido 4,1% sobre 2022 e 0,9% em relação a agosto. “As condições financeiras ficaram mais apertadas nos últimos meses, mas esperamos a continuidade da resiliência dos consumidores durante a temporada de Natal”, disse Jack Kleinhenz, economista-chefe da National Retail Federation (NRF).