Por Giseli Cabrini
Integrar o cuidado com a saúde à rotina de compra, responder à migração para marcas mais baratas (o trade down) e buscar novas fontes de receita estão entre os caminhos para o varejo alimentar. Ou seja, uma forma de reagir a um cenário de famílias endividadas, avanço da concorrência e um consumidor multicanal, em busca de hábitos mais saudáveis e cada vez mais atento à balança.
O tema foi debatido no painel sobre fatores críticos de sucesso para o varejo alimentar, na ABRAS’26 food retail future. Participaram a sócia-líder de Assurance para Varejo e Bens de Consumo da PwC Brasil, Helena Rocha, e o CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes.
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Como o endividamento e o “efeito K” afetam o varejo alimentar?
Gomes chamou a atenção para o chamado efeito K, fenômeno de bifurcação e acentuada desigualdade social, intensificado pelos juros altos (Selic elevada). “Temos que entender que o Brasil é um país com alta complexidade e com muita desigualdade, mas o fato é que a maior parte das famílias está endividada e isso se reflete nas gôndolas. O que temos visto é o trade down, ou seja, a migração para marcas mais baratas”, afirmou.
O que é o efeito GLP-1 e como ele muda o consumo?
Uma das chaves para melhorar os resultados do setor pode ser integrar o cuidado com a saúde à rotina de compra do shopper. A ideia dialoga com o tema da ABRAS’26, “Retail as a Service”, e com os novos hábitos de consumo impulsionados pelo efeito GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras.
Segundo Helena, os medicamentos GLP-1 mostram como um primeiro sinal de saúde pode virar uma jornada mais ampla de comportamento, suporte e gasto.
Para o CEO do Assaí, trata-se de uma grande revolução, que traz oportunidades e desafios tanto para o varejo alimentar quanto para a indústria. “Na minha visão, isso só acelera o que já existia antes: em geral todo mundo quer chegar ao fim do ano mais magro e saudável. Mas, no caso do atacarejo, já vemos claramente os reflexos disso na área de food service. A frequência do cliente transformador em nossas lojas se mantém, mas os volumes caíram. E isso vai se acelerar. Se o cliente busca, nós temos que atender. Esse é um período de transição que vai doer, mas necessário.”
Retail as a Service: que novas fontes de receita o varejo pode buscar?
Por isso, Gomes, é importante buscar novas fontes de receita. “Não há uma receita pronta. Enquanto classes com renda mais elevada têm mantido ou até ampliado o consumo, isso não acontece com a baixa renda. Daí a importância de apostar em novos negócios, e o Assaí tem feito isso com as farmácias, os postos de combustíveis e, mais adiante, com os eletropostos.”
O que a pesquisa Voz do Consumidor 2026 revela sobre saúde e serviços?
Os participantes conheceram na íntegra a pesquisa Voz do Consumidor 2026, da PwC. O estudo mostra que cresce a demanda por produtos acompanhados de serviços, o que dialoga com o tema do encontro.
Ficha da pesquisa
- Consumidores ouvidos: 21.808, em 27 países, incluindo o Brasil
- Período: fevereiro e março de 2026
- Executivos entrevistados: de varejo, bens de consumo, saúde e farmacêutico, em abril e maio
Como a saúde reconfigura os momentos de consumo?
Há algum tempo, empresas de alimentos, bebidas e varejo constroem seus portfólios em torno dos “momentos” do consumidor, como o café da manhã, o lanche na escola e o jantar em família. Com a cultura da saúde, da nutrição e do fitness cada vez mais presente no cotidiano, essas ocasiões passam a ser reconfiguradas em torno de objetivos específicos de saúde. A proteína é o exemplo citado: o café da manhã vira uma decisão sobre energia e desempenho.
A demanda por saúde vai além da prateleira?
Sim. Se antes o interesse por saúde se traduzia em produtos como tapetes de ioga, athleisure e vitaminas, hoje ele aparece em serviços criados em torno deles. Os exemplos são um anel que monitora o sono, um app que orienta exercícios e um relógio que acompanha a frequência cardíaca.
O que muda na prática para supermercados e atacarejos?
A PwC vê no varejo a oportunidade de se posicionar como porta de entrada para o consumidor explorar opções de cuidados de saúde, já que o setor o encontra em múltiplos pontos de contato: supermercados, farmácias, canais digitais e programas de fidelidade. Na prática, isso pode significar:
- gôndolas estruturadas por objetivo de saúde
- orientação farmacêutica e diagnósticos na loja
- programas de fidelidade vinculados a metas de saúde
- corredores dedicados ao sono e ao estresse
- cestas complementares para usuários de GLP-1
- recomendações que conectam alimentos, suplementos, dispositivos e serviços.
Quais alimentos e bebidas ganham espaço com a saúde?
Nos últimos 12 meses, vitaminas, minerais e suplementos foram a principal categoria de compra em saúde e bem-estar. Para os próximos meses, os consumidores planejam aumentar as compras de alimentos frescos e suplementos. Em contrapartida, a aquisição de processados e itens com alto teor de açúcar, bem como de bebidas alcoólicas tende a se retrair.
Entre a Geração Z, a tendência de aumentar o consumo de vitaminas, suplementos, laticínios e alternativas à carne é ainda mais marcada.
As promessas migram do genérico “mais saudável” para benefícios específicos: energia, saciedade, sono, humor, pele, longevidade, metabolismo e desempenho. Mas só isso não basta: o produto precisa ter um gosto bom.
Serviço
Evento: ABRAS’26 food retail future
Data: 21 e 22 de setembro
Local: Royal Palm Plaza, em Campinas (SP)


















